sábado, 16 de julho de 2016

A prova de orientação

A quando do cumprimento obrigatório do meu serviço militar em 1958 tive de frequentar, como já referi anteriormente, o curso de oficiais na Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, no Alto Alentejo. Desse curso faziam parte diversas disciplinas e exercícios de campo.
Um desses exercícios foi o de orientação. Acampados num terreno arborizado nos arrabaldes de Vendas Novas pelas 10 horas da noite de certo dia tocou a reunir e os diversos pelotões formaram-se prontamente.
Depois de verificado que todos os soldados cadetes estavam presentes o Comandante da Companhia informou-nos que naquela noite se iria realizar um exercício de orientação.
Foram-nos dados um mapa da região, uma bússola e um foco. Cada pelotão foi encaminhado para o seu unimog (veículo militar de transporte) onde os seus elementos foram obrigados a entrar.  Depois os unimogs arrancaram e cada um seguiu, pela noite fora um caminho diferente.
O que levava o meu pelotão, depois de percorrer alguns quilómetros por estrada acabou por entrar num caminho de terra batida e de estacionar num descampado.
Aí fomos descarregados e foi-nos dito que, agora, o regresso ao acampamento era por nossa conta, isto é que teríamos de regressar sem nenhuma ajuda ao local de onde partíramos a pé naquela noite fria de Inverno.
A seguir os instrutores meteram-se no veículo e foram-se embora. Ficamos sós com um mapa, uma bússola e um foco cada um.
Do meu grupo, como acontece normalmente em quase todos os grupos, logo houve alguns dos meus companheiros que afirmaram saber onde nos encontrávamos e qual a direcção que havia de ser seguida para chegarmos a Vendas Novas. Um desses líderes, tendo nascido em Goa, era descendente de indianos. Julgo que pertencia até a uma casta elevada e era tão inteligente como vaidoso.
Ao longo da sua vida foi professor universitário, ocupou cargos de responsabilidade no Estado e nas Misericórdias.
Logo conseguiu juntar à sua volta um numeroso grupo que se prontificou a segui-lo. Eu, na periferia do ajuntamento, tinha pouca vontade de o acompanhar, não porque duvidasse da rota traçada por ele mas porque pensava que caminhar a corta-mato em direcção a Vendas Novas não seria boa ideia, naquela altura, porque tinha chuvido muito nos dias anteriores, a terra estava enlameada e os ribeiros e riachos corriam cheios, impossibilitando a sua passagem a vau.
Enquanto cogitava sobre a situação um colega de origem alentejana, um pouco mais alto do que eu mas francamente mais gordo perguntou-me:
- Tu vais com eles ?
Respondi-lhe:
- Eu, não.
- Então qual é a tua ideia ?
- Eu vou seguir os rodados do unimog até à estrada e depois caminho por ela até ao acampamento. Desse modo não me perdirei e acabarei por chegar são e seco. Poderei chegar tarde mas chegarei.
- Tens um companheiro de viagem. Eu vou contigo.
Todos os outros foram partindo a corta-mato e nós os dois ficámos para trás. Depois seguimos os rodados do unimog.
Ao fim de uma boa caminhada acabámos por chegar à estrada nacional. Pouco depois de lá chegarmos vislumbramos uma placa de sinalização que dizia: Vendas Novas 22 Km.
Sem tropeções, em terreno seguro, sem lama nem lençóis de água caminhámos os dois a noite toda.
Falámos da nossa vida, do que pretendíamos fazer no futuro. Falámos da nossa família, das nossas namoradas, das nossas dúvidas, das nossas esperanças caminhando durante toda a noite.
Quando nos sentíamos cansados, principalmente por causa do meu companheiro que era pesadote, sentávamo-nos nos muros que delimitavam a estrada dos terrenos particulares quando os havia e nos marcos hectométricos implantados nas bermas da via rodoviária. E chegámos secos e sem lama ao Bivaque. Chegámos já com dia, muito cedo, cerca das seis horas e meia da manhã.
Encaminhámo-nos logo para cozinha para nos aquecermos e para bebermos qualquer líquido quente e comer, porque a viagem tinha sido longa e desgastante. Depois procurámos saber dos outros elementos do nosso pelotão.
Não tinham chegado ainda. Acabaram por chegar pelas sete horas da manhã, todos enlameados e molhados. A rota que tinham traçado estaria correcta. O problema é que encontram diversas linhas de água que não puderam atravessar nessa rota, procurando fazê-lo mais a montante no que perderam imenso tempo. O chão estava por sua vez toda empapado em água tornando a sua passada difícil e demorada.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

A noite de S. Martinho

No dia de S. Martinho de 1958 estava eu em Vendas Novas aquartelado na Escola Prática de Artilharia.
A minha camarata era constituída por oito beliches, quatro de cada lado com as cabeceiras encostadas às paredes laterais. Entre os beliches havia um espaço (corredor) que ia da porta de entrada até à única janela existente na parede posterior.
O meu beliche era ocupado por mim na parte inferior e na parte superior dormia uma camarada meu que, embora da minha idade, isto é com vinte e dois anos já tinha uma grande falta de cabelo.
Por brincadeira antes de adormecermos fazia-lhe uma festa na careca, atitude que o enervava mas que eu repetia sempre.
A instrução militar era muito cansativa. Passávamos o dia a mudar de fardamento, ora para a ginástica, ora para a luta corpo a corpo ora para os "crosses" pela planície alentejana, ora para a ordem unida... Era um corrupio. Entre os intervalos das diversas instruções mal tínhamos tempo para despir o fardamento e vestir o que se imponha na hora seguinte.
Também o esforço físico era permanente o que me trazia exausto.
Na noite do dia de S. Martinho de 1958 eu, que nunca tive grande apreço pelas bebidas alcoólicas, resolvi descansar pelo que não solicitei licença de recolher. Dos dezasseis cadetes da minha camarata fui o único que não pedi essa licença.
Deitei-me cedo, num enorme silêncio, enquanto todos os outros resolveram ir beber uns copos nessa noite.
Cerca da meia-noite desse dia, quando regressaram fizeram algum barulho mas eu dormindo profundamente não dei por nada.
Animados, como vinham, resolveram pintar-me um grande bigode e um pêra com a tinta de engraixar as botas. Com mercúrio-cromo também me pintaram de vermelho a ponta do nariz e as maçãs do rosto sem ter dado sinal de vida.
Continuei a dormir pesadamente. Disseram-me, no dia seguinte, que a única reacção que tive foi a de fungar pelo nariz com algum ruído devido possivelmente ao cheiro da tinta e do mercúrio-cromo.
Quando tocou a alvorada levantei-me lesto como sempre pois o tempo para a formatura do pequeno almoço não demoraria muito e antes teria de tomar um chuveiro diário de água gelada, de me barbear, pentear e escovar os dentes e, claro, de me fardar convenientemente.
Só quando cheguei ao balneário, olhando-me no espelho é que tomei consciência da figura em que estava. Fartei-me do vocifrar para gáudio dos meus colegas. E tratei de limpar as pinturas que me haviam feito como pude.
Os meus colegas esses riam com o meu enervamento e desespero na tentativa de remover as pinturas de que tinha sido objecto.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Cantiga da rua

A história que vos vou contar passou-se numa terra muito pequena, numa aldeia perdida na Beira Interior que se chama S. Pedro do Rio Seco.
Outrora havia por lá um riacho que hoje já não existe. Secou.
S. Pedro do Rio Seco é uma terra de pastores e agricultores.
Entre os rapazinhos que eu conheci, quando por lá passei, havia dois que são os principais protagonistas desta história: o Carlinhos, filho de um lavrador abastado e o Zé Pequeno, filho de um ferreiro.
O Zé Pequeno era um rapazinho triste e enfezado que andava sempre agarrado a umas muletas, porque não tinha força nas pernas.
O Carlinhos, esse era muito saudável de rosto sempre afogueado, de tronco encorpado e nádegas avolumadas. Tinha uma cara gaiata que em certas ocasiões me fazia estalar o riso.
Muitas vezes brincávamos no meu quintal onde havia uma coelheira com muitos coelhos e também uma cabrinha que, servia em certas ocasiões, de cavalo de guerra.
Outras vezes brincávamos em casa do Carlinhos que era grande e recheada de tudo. Quase sempre, quando lá íamos, éramos convidados para comer uma lauta merenda onde entre outras coisas entravam figos, nozes, pão com marmelada...
Em outras ocasiões juntávamo-nos na casa do Zé Pequeno onde com curiosidade, seguíamos os trabalhos em ferro que o seu pai executava.
Nós esforcávamo-nos sempre por alegrar o Zé Pequeno na frente do seu pai, que era um homem que trabalhava horas a fio à bigorna e a malhar e cortar ferro até ficar exausto de cansaço.
Falava pouco o Tio Zé Ferreiro e nunca o vi sorrir. Mas também nunca ninguém o ouviu lamentar-se da sua triste sorte.
Certo dia, próximo do Natal, ele nos confidenciou que o seu pensamento, a sua ambição era juntar o dinheiro necessário para que o seu filho entrevado pudesse libertar-se das muletas fazendo uma operação à coluna vertebral.
Pelas contas dele ainda faltavam dois anos de duro trabalho para atingir a quantia em dinheiro necessária para poder pagar as despesas da operação do Zé. Mas havia de o conseguir e então o seu filho deitaria corpo, far-se-ia forte e poderia ajudá-lo na ferraria.
Eu fui para casa a pensar nas palavras do Tio Zé Ferreiro e contei o que ouvira dele aos meus pais. Eles logo me deram uma nota de mil escudos (cinco euros) para ajudar nas despesas da operação.
Quis correr para casa do Zé naquela noite para lhe entregar os mil escudos, mas os meus pais não mo consentiram e, por isso, tive de me deitar.
No dia seguinte, de manhã cedo, fui acordado por uma barulheira enorme. Era um acordeão que se ouvia. Lembrei-me logo do Carlinhos que tinha um acordeão e da sua música preferida: A Cantiga da Rua.
Lá estava a Cantiga da rua. Comecei a perceber e a distinguir a música, só não entendia por que seria que o Carlinhos andava tão de manhãzinha acordando com a sua cantiga toda a gente daquela pacata aldeia, meio perdida na Beira Interior.
- Eh Carlos ! Porquê tão cedo ?!
O Carlinhos vinha mais afogueado do que o costume e os seus olhinhos espertos brilhavam muito.
Ele disse-me qualquer coisa à toa. Falou em Zé Pequeno... operação... dinheiro.
Também não precisava de dizer mais nada porque eu percebi logo tudo e atirei-lhe com a minha nota de mil escudos.
O Carlinhos continuou a sua marcha, tocando no acordeão a sua música preferida:
Cantiga da rua
De todas diferente
Não é minha, não é tua
É de toda a gente.
E foi percorrendo todas as ruas de S. Pedro do Rio Seco e parando em todas as casas.
Andava penosamente porque o acordeão era enorme tendo em vista a sua pequena estatura. Parecia uma pintura de um autor célebre, com o seu cabelo negro em desalinho, a sua face afogueada e o olhar esperto.
A todos que encontrava dizia sempre à toa algumas palavras das quais sobressaiam: Zé Pequeno... operação... dinheiro.
E tocando o seu acordeão aquele rapaz que eu conheci, quando passei por S. Pedro do Rio Seco, conseguiu juntar o dinheiro suficiente para poupar ao Tio Zé Ferreiro muitos dias de trabalho insano e de lhe trazer ao rosto um breve sorriso contido naquele distante Natal.

Nota: Esta história aconteceu na vida real, mas num contexto diferente daquele que descrevi e com outra canção e outros intervenientes.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Os trabalhos de topografia

Na minha vida profissional procedi a diversos levantamentos topográficos quer para a execução de projectos de vias rodoviárias e de abastecimentos de água a populações quer para a implantação de edifícios.
Utilizava nesses trabalhos um taqueómetro, aparelho destinado à obtenção e registo dos elementos necessários ao cálculo de distâncias e de desníveis e ao desenho dos levantamentos topográficos (plantas, perfis longitudinais e transversais).
O referido aparelho é munido de uma luneta que permite ver à distância como um binóculo.
No decorrer desses meus trabalhos de campo algumas vezes me deparei com situações curiosas.
Certa vez em Bissau, na Guiné, prestando serviço para a Empresa Tecnil, tive de proceder ao levantamento topográfico de uma apreciável área de terreno, tendo em vista a implantação no local das novas instalações da referida empresa.
No fim da tarde, com o trabalho terminado, tive a ideia de fazer algumas miradas sobre os arredores do lugar algo ermo e pouco frequentado onde me encontrava. E aconteceu-me a certa altura deparar com um longínquo grupo de jovens mulheres negras e mulatas completamente nuas tomando banho num riacho. Fiquei surpreendido com tal aparição e por alguns momentos não deixei de gozar o espectáculo que elas proporcionavam.
Pude perceber que se tratava de um grupo de lavadeiras de roupa que, depois de executarem o seu trabalho, se banhavam no riacho, todas nuas, para se refrescarem possivelmente pelos seus corpos estarem transpirados devido ao trabalho que haviam efectuado ao calor inclemente da Guiné.
De outra vez estava eu a executar o projecto de uma estrada municipal entre Lamego e Resende, na região do Douro, acompanhado de um topógrafo quando tive outra divertida surpresa.
Depois de ter implantado no terreno diversas bandeirolas definindo a directriz de parte da referida estrada regressei à estação onde operava o referido topógrafo.
Encontrei-o sozinho a rir-se, soltando sonoras gargalhadas. Pensando que o meu colaborador tinha "pirado" perguntei-lhe o que se passava com ele.
- Venha, venha ver ! Foi a sua reposta.
Aproximei-me do taqueómetro, olhei pela luneta e o que vejo: uma jovem rapariga, lá longe com as mamas de fora do corpete, quando tentava atravessar uma corrente de água. A travessia dessa corrente fazia-se caminhando por uma espécie de barragem constituída por calhaus rolados.
A rapariga desequilibrava-se ao caminhar por cima dos calhaus e como era dotada de seios volumosos os mesmo com a ginástica que tinha de fazer para se aguentar de pé na passagem da levada, libertavam-se do "soutien" e saiam cá para fora. Por mais que ela tentasse acomodá-los no interior da roupa nada conseguia pois, desequilibrando-se, eles voltavam a aparecer à luz do dia.
Também me ri com a situação. Depois passei o taqueómetro ao meu companheiro que continuou a seguir a rapariga por alguns minutos e a rir-se como um desalmado.

terça-feira, 12 de julho de 2016

A Boneca

Ao relembrar as passagens que fiz por diversas terras detenho-me muitas vezes em certos lugares onde estive recordando os momentos agradáveis que lá vivi.
E uma das paragens em que mais de detenho é, sem qualquer dúvida, Valença do Minho.
Dada a vida um pouco errante dos meus pais percorri diversas zonas do país tendo passado alguns anos em Valença do Minho que considero a minha terra de eleição. Lá vivi dos sete aos doze anos. Lá tive os meus primeiros amigos, as minhas primeiras liberdades e inquietações, os meus primeiros sucessos e desgostos e a minha primeira namoradita.
Foi lá, em Valença do Minho, que iniciei a formação da minha própria personalidade e onde concebi os meus primeiros sonhos.
A cidade é uma maravilha, com a sua parte antiga situada numa pequena elevação abraçada por uma muralha fortificada e a parte mais moderna desenvolvendo-se ao redor dessa muralha.
A ladear Valença à o Rio Minho que separa Portugal de Espanha, rio de uma grande beleza paisagística. Do outro lado do rio situa-se Tuy, uma cidade espanhola sempre presente para quem vive em Valença, pois localizando-se numa zona altaneira são sempre visíveis do lado português alguns dos seus edifícios.
Era de Tuy a freira que me ensinou a catequese para eu poder fazer a comunhão.
Vinha todas as tardes a pé da cidade espanhola, atravessando a velha ponte metálica sobre o Rio Minho, subindo um escadório logo a seguir à alfândega do lado português, percorrendo um túnel (a gambiarra ) e entrando na parte velha de Valença do Minho onde se situava (e situa) a igreja paroquial.
Eu soube pelas minhas duas irmãs, mais novas, que se andavam a preparar para fazer a comunhão. Brioso como sempre fui não me conformei por ver as minhas irmãs passarem-me à frente neste capítulo. Por isso, numa certa tarde, resolvi irromper pela igreja a dentro na procura de alguém que me orientasse no sentido de também poder fazer a comunhão no mesmo dia que elas.
Quem me interpelou foi a referida freira espanhola perguntando-me o que procurava. Depois de lhe dizer o que pretendia acolheu-me amorosamente, tendo-me feito uma recepção calorosa e integrou-me no grupo que estava catequisando.
Foi-me avisando de que o grupo já estava sendo preparado a algum tempo e que por isso eu teria de fazer algum esforço para puder recuperar o atraso que tinha em relação aos seus elementos.
Logo assegurei à freira que não havia problema a esse respeito pois procuraria aprender depressa a parte do catecismo que já havia sido dada. E assim foi. Fiz a comunhão ao mesmo tempo que as minhas irmãs. E ganhei uma grande amizade com a freira que, mesmo depois de deixar de ser minha catequista, me trazia muitas vezes pequenas lembranças de Tuy como caramelos e chocolates.
E a minha aplicação foi tal no respeitante à religião que cheguei mesmo a ajudar o padre na missa dominical.
Naturalmente que concorreu para isso também a influência das freiras do colégio que frequentei. O colégio era frequentado por rapazes e raparigas, mas uns e outras assistiam às suas lições em alas diferentes do grande edifício que tinha entradas e saídas separadas.
Durante as aulas nunca via-mos as raparigas nem elas viam os rapazes. Somente podíamos contactar as alunas externas cá fora, antes da entrada do colégio ou à sua saída. Às alunas internas nunca lhe púnhamos os olhos em cima se não quando o ano escolar terminava. Nessa altura as freiras juntavam-nos para preparar-mos uma grande récita de final do ano de que fazia parte uma peça de teatro, algumas exibições musicais de piano, de acordeão e de guitarra interpretadas por alunos do colégio e no encerramento exibia-se um conjunto coral formado por estudantes de ambos os sexos.
Foi numa dessas festas que eu fui acometido pela minha primeira paixão. E logo pela figura feminina central da peça de teatro em que ela representou uma boneca.
Era a rapariguinha mais bonita de Valença. Foi ela a minha primeira namoradita. O seu verdadeiro nome era Fernanda, mas depois da peça de teatro toda a gente passou a chamar-lhe Boneca.
E essa minha paixão perdorou por algum tempo.
Mais tarde com os meus catorze anos ainda lhe escrevi os seguintes versos:

             Boneca

Se eu procurar, Boneca,
Por Hancheu e por Rangum
- Correr mesmo Seca e Meca -
Não hei-de encontrar boneca
Mais bonita do que tu.

Porque boneca mais linda
Não há, de certo, na China
- Em Xangai ou em Pequim - 
Mesmo feita de caulim
Da porcelana mais fina

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Monsieur Pinô

Ainda estava ao serviço da extinta Junta Autónoma de Estradas como Engenheiro Técnico quando, sem me ter candidatado a coisa nenhuma, fui designado para usufruir de uma bolsa da OCDE e fiz um estágio em França sobre vias rodoviárias.
Durante uma semana inteirei-me em Paris da organização da Direction des Routes (órgão estatal responsável pelas estradas de França). Depois passei algum tempo por Bordéus e acabei a minha missão em Toulouse por os directores do meu estágio considerarem haver alguma semelhança entre esta região de França e a região de Viseu onde vivia e ainda vivo.
Nesse estágio tive muitas surpresas. Logo no início verifiquei que os franceses colocavam as pessoas e as suas qualidades acima dos seus títulos académicos. Tratavam-se todos por monsieur fulano ou sicrano, ignorando os títulos profissionais que possuíam. Fui até surpreendido quando os coordenadores do estágio procuraram saber a minha opinião sobre o programa do mesmo solicitando que o "Messié" Pinô discorresse sobre o assunto. Fiquei à espera que o nomeado Pinô dissertasse sobre o programa, mas como ninguém respondia ao chamamento e os olhos dos meus interlocutores se concentravam em mim acabei por perceber que o Pinô era eu. O meu nome é Fernando de Pinho Valente e os franceses resolveram tratar-me pelo segundo nome: Pinho. E como o "h" não tem leitura (som) na sua língua e o "o" se lê ô acabei por ser designado por Pinô.
Todos os engenheiros franceses, alguns muito qualificados e capazes, eram tratados pelo nome de família. E nos seus trabalhos, relatórios e projectos sempre assinavam o seu nome em primeiro lugar e por debaixo indicavam as escola onde se haviam formado.
Conversando com "Messié" Lafargue, um ilustre engenheiro de pontes e pavimentos, que conhecia Portugal, referiu-me que se tinha apercebido que no nosso país havia uma grande atracção pelos cursos universitários, por esses cursos darem um estatuto especial a quem os obtinha e que havia um défice muito grande de profissionais em vários ramos.
E sobre este assunto contou-me uma história. Disse-me que conhecia uma família francesa com dois filhos: um que sempre foi muito bom estudante e o outro com pouca apetência pelos estudos. O primeiro dos irmãos deu imensa alegria aos seus progenitores pois sempre obteve altas classificações, licenciado-se, doutorando-se e, na altura, era professor universitário. Do mau estudante durante alguns anos os pais só tiveram desgostos e tristezas.
Mas este acabou por se colocar como canalizador assalariado. Depois montou uma empresa de canalizações, em que tem a seu cargo diversos profissionais dessa especialidade. Ganha muito bem. Os seus proventos são superiores ao do seu irmão professor universitário. É ele quem paga as férias aos seus pais. E o irmão muitas vezes também é convidado. Quando os pais adoecem e precisam de cuidados médicos é ele também que paga as despesas de saúde que eles fazem.
O dinheiro não é tudo na vida mas ajuda muito para se poder viver com alguma qualidade. E o filho da referida família francesa, sem vocação para estudar, soube no entanto fazer o seu próprio percurso de vida com dignidade e materialmente bem recompensado.

domingo, 10 de julho de 2016

A minha casa em Bissau

Em Abril de 1970 fui mobilizado para a Guiné, onde decorria uma sangrenta guerra colonial, sendo colocado no Batalhão de Engenharia 447 em Bissau.
Pouco tempo depois de ter chegado à referida colónia, consegui alugar uma pequena moradia na Avenida Arnaldo Schultz, muito próxima do quartel da polícia.
Era uma pequena vivenda mobilada e equipada com uma sala de estar, outra de jantar, dois quartos, cozinha e um quarto de banho. Mas tinha à sua volta um pequeno jardim no qual havia duas bananeiras, uma papaieira e uma belíssima acácia rubra.
Essa moradia permitiu-me alojar a minha também pequena família, composta por mim próprio, pela Lena (minha mulher) e o Fernando Manuel meu único filho, na altura com nove anos de idade que chegariam a Bissau a 24 de Junho de 1970, depois de cumprido o ano escolar.
Dada a minha posição na hierarquia militar tive direito a um impedido. Foi-me atribuído para executar essas funções um soldado negro, que anteriormente havia sido "terrorista", de nome Moba de religião muçulmana. Tinha já três mulheres quando entrou ao meu serviço e vários filhos. Andava sempre com dificuldades financeiras. Muitos dias antes do pagamento do pré pedia-me adiantamentos quase todos os meses.
Dizia-me que não tinha dinheiro para comprar a "vianda" para os meninos. E eu adiantava-lhe o pré. A sua religião proibia-o de beber vinho. Mas para ele vinho somente era o tinto. Dessa forma iludia as suas próprias convicções religiosas, pois dizia-me que o vinho branco era água de Lisboa e como tal não lhe estava proibido bebê-la.
Quando a sêde lhe apertava pedia-me:
- Capitão, dá-me um copo de água de Lisboa. E eu, em regra satisfazia-lhe o pedido.
Um dia pediu-me férias.
- Férias nesta altura, Moba ?
- Sim, Capitão. Preciso de alguns dias de férias para casar.
- Outra vez ?! - admirei-me eu. Já tens três mulheres e não sei quantos filhos e queres outra mulher ?
- Preciso, Capitão. Vou casar com uma "bajuda"(1). Quando eu e as minhas outras mulheres envelhecermos ela tratará de nós.
Perante esta explicação não pude deixar de dar férias ao meu impedido Moba.
Também tivemos ao nosso serviço uma lavadeira negra de nome Inácia. Durante o tempo que nos serviu o marido dela adoeceu gravemente e acabou por morrer.
Ficámos tristes com o infausto acontecimento uma vez que tinha-mos muita estima pela Inácia, que era muito boa pessoa.
Sempre que me irritava com alguma traquinice do meu filho e lhe ralhava ela punha-se imediatamente à minha frente e rogava-me:
- Capitão, não batas ao menino. Capitão, por favor.
Por isso quisemos saber da futura situação da Inácia e do seu pequeno filho. Ela informou-nos, então, que tudo estava assegurado. Passaria a pertencer a um seu cunhado e o "tiozinho" passaria a ter a responsabilidade de criar o miúdo.
Era uma criatura paciente, humilde e meiga a Inácia. Gostava muito do meu filho. Dizia-me, a respeito dele, muitas vezes:
- Menino tem esperto na cabeça.
Tivemos também uma "bajuda" para a limpeza. Era uma rapariga muito nova que, findo o trabalho, se despia completamente nas traseiras da nossa casa e se lavava com a mangueira do jardim.
Encontrei o meu filho algumas vezes, por detrás das persianas, gozando o espectáculo que a "bajuda" oferecia sem o mínimo pudor.
Também tivemos um pequeno cão, o Perna Longa, e um periquito. Uns tempos antes de regressar-mos a Portugal demos o cão. O Moba tratou de o levar para o novo dono que habitava longe de nós. O animal procurou e conseguiu voltar à nossa casa, orientado-se não sei como por entre aquele emaranhado de bairros de palhotas que circundavam a cidade.
Só depois de ser preso pelo novo dono é que deixou de nos aparecer.
Quanto ao periquito ofereci-o ao Major (é hoje General) Carlos Azeredo. Ele tinha tido um periquito que morreu. O Major falou-me do seu passamento com alguma tristeza. Perto de regressarmos, para aliviar a tristeza do major, ofereci-lhe o periquito.

1 Bajudas: era o nome dado às jovens menstruadas.

Nota: Esta história faz parte do livro "Memórias da Guiné" do mesmo autor, de onde foi transcrita.